19/07/2012

Rodeios

 Desfaça-se, há esperança ainda de paz. Mesmo que forçada, suplicada. Mesmo que pela metade ou paz de sobra. "Sobra", uma palavra que pra mim remete-se não ao exagero mas ao comodismo. Amor de sobra, dinheiro de sobra, saúde de sobra, amigos de sobra. Sobra das sobras. Estagna-se. Eu já tenho, pra quê  cuidar, cultivar, procurar, ir em busca? Desfaça-se dos costumes e não aceite sua condição facilmente.
 Na minha porta, ao redor, há umas frestas e me incomoda. Sujeira na unha, cabelo na boca. Cobranças. Espirros seguidos infindáveis. Eu, me incomodo. Mas eu tenho esperança de paz interior. Mesmo que inconstante, desfalecida. Ainda que arfante, rastejante. Aliás, o ato de "rastejar" pode ser humilhante ou preciso. Dependendo da fome, da culpa, do alvo. Da urgência.
 Eu rastejo entre meus desânimos e angústias. Sobre minhas interrogações. Sempre falta algo, embora estejamos completos?! Esse buraco é meu ou foi a falta de receber que o deixou assim? Alguém o cavou ou eu me deixei cavar? Quem sou eu com essas perguntas? Para uns sem sentido, para outros encontro, para muitos delírio, para todos: sem respostas.
 Eu, quem sou? Sou o não saber o que sou. Continuo sendo, mesmo perdida no desconhecido de mim. Ainda assim, eu me tenho: sem nome. E me continuo sendo: incógnita.

26/06/2012

Minhas palavras

 Eu não conto a ninguém, ninguém sabe. Mas eu sinto e eu sei. Eu não conto, porque em parte, não acreditariam e também, porque eu sei que no fundo não tenho talento para tanto. Mas eu quero. E querendo assim, me faz ficar cada vez mais certa de que só posso querer. Querer e sonhar, alto e cada vez mais alto com as palavras que dormem comigo, que me rodeiam, que choram e sorriem ao meu lado. Que sabem de cada angústia, de casa ferro que me foi enfiado no coração e depois retirado. Elas me acompanham há muito tempo, porém demorou um pouco pra descobri-las. Demorou para usá-las como refúgio, apoio, passaporte, embarque, retorno, viagem, loucura. Usá-las como acalento, amigas, reforço, fonte inesgotável de sentimento.
 Me apareceram de repente e eu me apaixonei. Meu próprio lado - no meu pior ou melhor momento - sendo transformado em algo bonito. Confesso, gosto do que leio. Gosto. Não tenho fortes paixões nem amo nada que escrevo. Eu gosto. Gosto mais ainda como me sinto quando termino de chorar e minhas mãos se cansam junto comigo. Gosto quando uma alegria ou surpresa me toma inteira e eu vou lá, botar a companhia das minhas palavras pra fora. Eu afloro. Eu mesma. Seja doce, áspera, seca ou vibrante. Eu estou aqui junto com elas, mas também ponho muita coisa pra correr. Eu me curo. De mim mesma. Eu rejuvenesço, amadureço. Entendo coisas que nunca antes foram compreendidas. Eu encaro meus medos, eu mudo de lado, eu inverto papeis, eu caminho ao acaso, eu sorrio pra escuridão e tudo depois fica claro. 
 Mas demorou para descobri-las e usá-las. Minha mais fiel companhia de mim mesma, queria mostrar-se... E aos pouquinhos eu fui deixando, e fui gostando e fui sorrindo e hoje somos grudadas. Seja em parede, em agenda, em mural, em cartas, em mãos, em corações. Seja aqui, ou dentro de mim. De minha mente, de minhas veias, de meus passos, de meus montes de lembranças, meus montes de bagunças sentimentais. Hoje quando eu sinto falta, eu as procuro. Quando eu me encontro, eu as procuro. Quando eu sofro, eu as procuro. Quando erro, as procuro. Quando eu as procuro, elas me acham.

12/06/2012

Poema sem rima

Abertos os olhos
Café quente, banho frio.
Um pulso fraco.
Um passo forte, firme - na dor. 

Sol que queima, coração que gela
Unhas acariciam, dedos apertam
Um olhar penetra, o sorriso se esvai.

Dedilho no rasgo que formou-se
Uma construção sobre destroços
O horizonte que tentou mostrar-se
Mas o desfoque impediu.

Um buraco no meio do nada, uma vontade de abraçar o mundo
Acordes de uma vida com melodia dramática
Um violão, um corpo. 

Formou-se um soneto ritmado.

25/04/2012

Antiga dor

 Eu venho lhes contar sobre uma dor, antiga – e que pode voltar a qualquer momento. A temo, me tremo em pensar, o coração se retrai, as pernas estremecem e os olhos... Fecham-se num soluço. Mas é preciso falar, se não engasgo e acabo por engoli-la: o que seria mortal. Talvez conheçam bem, talvez já tenham esbarrado em alguma rua, e para os sortudos e felizardos: talvez nunca a encontrem. E para mim, infelizmente, já provei do seu amargo. Muito! E sem hesitação, é de causar enjoo.
 Eu sei dos riscos, sou consciente de meu medo e também que, tudo é aprendizado. Quase tudo é passageiro. E raro é a palavra “sempre”.  Sei que como abrem a porta, podem também fechá-la. Que o amor brota, assim também como murcha. Como uma flor. E que o que realmente importa, é seu tempo de vida. Depois... Depois a dor antiga da qual falo toma o lugar e aflora. No chão infértil e desabitado, na terra sem produtividade, no deserto dos desiludidos é onde ela aparece. Indomável!
 Não importa quanto tente, nade contra a correnteza ou invente suas distrações hipócritas. Não adianta! Nada adianta! Ela vai tomando forma, se enraizando, crescendo, se nutrindo da pouca chuva e finalmente, te domina. Você, de mãos atadas. De coração estilhaçado. De olhos inchados. De corpo dormente. Sem alma. Sem rumo. Sem alicerce. Sem direção. Sem o que pôs a semente dessa tal dor, dessa tal flor – maldita. E eu sei, quem a planta é quem me mata pouco a pouco todos os dias. Assim como quem me reconstruiu um dia.
 Sei que passa, mas a cada semente posta, a vulnerabilidade aumenta. A força um dia acaba ou isso tudo é para fazê-la crescer?

16/04/2012

TPM

 Posto - meus sentimentos - numa sacola, uma vez por mês a sacodem. Com força! A cabeça fica confusa, a confiança regride e toda certeza vira um mar onde eu, navego num barquinho... sozinha. Tudo o que dói, é por sentir a solidão. A verdadeira solidão. É onde um machucadinho, vira algo tão grande que parece ser incurável - e é, no momento é incurável. Toda nuvem parece carregada, toda chuva uma louca tempestade e toda sanidade esvazia-se.
 Uma vez por mês, me sacodem. Com força!!! Não tem amor nem carinho. Só desespero. Um alfinete parece uma lança mortífera e o mesmo, me espeta e me espeta e me espeta e me espeta. Até formar um grande buraco no meu coração, que sangra, sangra, sangra, sangra. Depois de alguns dias sara.

09/04/2012

Sonoro encontro

 Se eu quisesse contar desvendando o mistério, seria entregue demais. Eu enfeito, elaboro, te ponho em linhas indecifráveis... Eu te ponho na ponta do lápis e você vai sendo bordado em minhas palavras, porém todo encoberto. Mas coberto de gestos, bondade, afeto. Coberto de paz. Sucumbido-se pela sinceridade - no olhar.
 Você não precisa ser exposto, pra ser entendido. Você não precisa ser claro, pra ser entendido. Você não precisa ser entendido, pra ser sentido. Você precisa seguir o trajeto de minhas mãos e no momento exato, as segurar. Você precisa apenas - e somente - de bastante lápis de cor e poesia. E versos. E leitura. Ler o que te escrevo, mesmo sem captar o que digo - mesmo sem querer dizer -, já basta.
 O som da sua voz é o presente do nosso encontro.

Isso que surgiu e não sei dar nome,
talvez magia
    talvez encontro
           talvez uma surpresa
         talvez um repouso,
nunca cesse. Que nos guie...


07/03/2012

Construção

Acompanhava as batidas do relógio fielmente, e vez por outra me perdia num sonho. Era madrugada, o galo já cantara e o vento gelado percorria o quarto. O relógio não se cansava, ele nunca se cansa. Ele não dorme e nem acorda: nos orienta. Imaginei a vida assim, bem longe... E fui caminhando. Descobrindo lembranças perdidas, esquecidas e repreendidas. Lugares nostálgicos, movimentos repetidos, pessoas permanentes e também passageiras. Enxerguei quem realmente ficou e o porque de muitas irem. Me analisei. Passo a passo. Pé após pé. Foi assim que o coração me ensinou. E foi por ele que eu fui caminhando. E foi nele que eu entrei e me descobri. E me reinventei. E sempre me reinventarei quando for preciso menos realidade pura e ácida, quando for necessário mais sonhos bons. Me reinventarei a cada vez que me perder caminhando por aí, tentando encontrar soluções e desvendar mistérios ou quando precisar responder as minhas perguntas que sempre ficaram em branco - sempre ficarão. Me reinventarei a cada vez que a solidão sentar ao meu lado, a cada vez que o sono chegar mais próximo e mais próximo e mais próximo e me sentir longe, bem longe. É quando me sentir longe - de mim mesma - que reinventarei.
Amanheceu.