31/01/2013
Trilha
O piscar dos olhos em um milésimo de segundo visto bem lentamente. Fazendo o caminho inverso do suor saindo dos poros. A mão acariciando a nuca, bagunçando os cabelos, fazendo cócegas e risos incontroláveis - extremamente espontâneos. Um beijo que parecia conhecer somente ali o ato de beijar - antes o que era? Uma caminhada de pés descalços na areia molhada, na areia fofa... Uma caminhada na grama verde. O cruzar dos dedos, em um movimento leve, sutil. O sono carregado de estrelas quando se cruza com o outro (teu) sono. O desabrochar de um sorriso, o surgimento de uma fragilidade - que lindo e intrínseco são as fragilidades humanas. O tempo que passa, carregando momentos e deixando lembranças. A saudade do que já se viveu e também do que ainda irá viver. A saudade! A espera pelo dia seguinte, o próximo segundo, um abraço. A chama que se acende e não há vontade alguma de apagar. O fogo que toma conta e queima quilômetros dentro do desejo. A distração do sentir, que vez ou outra solta risadas descuidadas. A fala baixinha no ouvido, que pede a maior proximidade possível. O frio que pede aconchego. A descoberta que não se cansa de desvendar os labirintos e cria outros e outros e nunca cessa. A trilha que se segue...
10/10/2012
Reflorescimento
Eu respiro, finjo parecer algo normal... Tentar esquecer, sabe? Como quem diz: Isso acontece com todo mundo, eu não sou diferente. Comigo não vai ser diferente. E aí eu me ponho a chorar, lamentando toda a situação. Melodramática, que sou. Sentimentalismo excessivo. Sempre fui assim, muito ofendida com a vida. Ela vem, dá um chute manso e eu faço disso uma novela. E sempre me pergunto, será que sou só eu que assisto? Daí me ponho a chorar, novamente. E quando ela, a vida, resolve ser bondosa, eu estranho. Encaro-a. Indagando-me. Eu mereço? É... Como quem se acostuma e se surpreende por estar feliz. No entanto, vou pondo a roupa, apressada, e tratando logo de correr pra encontrar com ela. Saio pisando em buracos, poças, me sujando, lavando minha alma. Compro uma água, volto a andar depressa... Ela me espera, finalmente, ela me espera. Sigo arfante em encontrá-la. A felicidade bateu na porta e correu, quer que eu a siga. A felicidade me telefonou, quer que eu a encontre. A felicidade me deu um presente, quer que eu desfrute. Por isso corro, corro pra escrever e dizer que estou encontrando-a e não sei se eu apenas me assisto... Não me importa, o romance tá surpreendendo a cada capítulo e eu não perco por nada - a novela da minha vida.
Algumas tardes a gente toma um café, numa conversa longa. Encontros imprevisíveis, espontâneos. Soltamos gargalhadas despercebidas, tornamo-nos amigas sem dá conta da hora. E porque marcar horário com a felicidade, como uma consulta ao médico? A felicidade cura, é certo. Mas vem assim... Sem que possamos nem sequer preparar um cartaz de "Bem vinda". Porque ela sempre será bem vinda! E vou, sorrindo pelos cantos, pela boa companhia que ando conhecendo ainda mais. Ela fez as malas e veio me visitar, acho que veio pra ficar. Eu finjo que veio pra ficar, de vez.
"É uma lei básica: exatamente como a água flui para baixo e o fogo flui para cima, o amor flui em direção a felicidade."
12/09/2012
Yo
Eu que ando. Que andar cansa, mas também exercita. Que andar movimenta. Eu que desmonto. Que depois me remendo. Porque ser inteiro o tempo todo, cansa. Eu que como. Porque abastecer é necessário e deliciar-se também. Eu, que submeto. Porque condição e opção existem. Submeter-se por ter ou querer. Submeter-se a quê? Você? Mesmo?
Eu. Eu que leio pra encontrar-me e definir-me - sem êxito. Eu que leio pra tentar sair de mim. Eu que consigo sair e doi quando volto. Eu que volto porque tenho vida, mas que ela muda quando leio, sim. E eis que volto pois mudança seguida interrompe a absorção.
Eu. Eu que leio pra encontrar-me e definir-me - sem êxito. Eu que leio pra tentar sair de mim. Eu que consigo sair e doi quando volto. Eu que volto porque tenho vida, mas que ela muda quando leio, sim. E eis que volto pois mudança seguida interrompe a absorção.
24/08/2012
Eu que já não sei mais onde piso, apenas sigo. A coragem transbordando o copo do medo. Pois mergulhada eu vou nadando e no fundo vejo a superfície. Ela que me chama, atenta para as aventuras e delírios do coração. Apenas nado. Uma palavra doce está me bebendo aos pouquinhos, mas quem tem sede sou eu. Sede de vivê-la, conhecê-la e me deliciar. Ando nadando nesse copo... A superfície quer me alcançar pra finalmente eu ser bebida - pelo amor.
01/08/2012
Calo(ejo)
Calejo
Espero, tropeço
Eu erro
Eu entristeço
Eu esmoreço
Me calo
Eu calejo
Vou, busco
Encontro (me)
Eu me aceito
Eu mudo
Me surdo
Calejo
Grito, olho
Me calo!
Espero, tropeço
Eu erro
Eu entristeço
Eu esmoreço
Me calo
Eu calejo
Vou, busco
Encontro (me)
Eu me aceito
Eu mudo
Me surdo
Calejo
Grito, olho
Me calo!
19/07/2012
Rodeios
Desfaça-se, há esperança ainda de paz. Mesmo que forçada, suplicada. Mesmo que pela metade ou paz de sobra. "Sobra", uma palavra que pra mim remete-se não ao exagero mas ao comodismo. Amor de sobra, dinheiro de sobra, saúde de sobra, amigos de sobra. Sobra das sobras. Estagna-se. Eu já tenho, pra quê cuidar, cultivar, procurar, ir em busca? Desfaça-se dos costumes e não aceite sua condição facilmente.
Na minha porta, ao redor, há umas frestas e me incomoda. Sujeira na unha, cabelo na boca. Cobranças. Espirros seguidos infindáveis. Eu, me incomodo. Mas eu tenho esperança de paz interior. Mesmo que inconstante, desfalecida. Ainda que arfante, rastejante. Aliás, o ato de "rastejar" pode ser humilhante ou preciso. Dependendo da fome, da culpa, do alvo. Da urgência.
Eu rastejo entre meus desânimos e angústias. Sobre minhas interrogações. Sempre falta algo, embora estejamos completos?! Esse buraco é meu ou foi a falta de receber que o deixou assim? Alguém o cavou ou eu me deixei cavar? Quem sou eu com essas perguntas? Para uns sem sentido, para outros encontro, para muitos delírio, para todos: sem respostas.
Eu, quem sou? Sou o não saber o que sou. Continuo sendo, mesmo perdida no desconhecido de mim. Ainda assim, eu me tenho: sem nome. E me continuo sendo: incógnita.
Na minha porta, ao redor, há umas frestas e me incomoda. Sujeira na unha, cabelo na boca. Cobranças. Espirros seguidos infindáveis. Eu, me incomodo. Mas eu tenho esperança de paz interior. Mesmo que inconstante, desfalecida. Ainda que arfante, rastejante. Aliás, o ato de "rastejar" pode ser humilhante ou preciso. Dependendo da fome, da culpa, do alvo. Da urgência.
Eu rastejo entre meus desânimos e angústias. Sobre minhas interrogações. Sempre falta algo, embora estejamos completos?! Esse buraco é meu ou foi a falta de receber que o deixou assim? Alguém o cavou ou eu me deixei cavar? Quem sou eu com essas perguntas? Para uns sem sentido, para outros encontro, para muitos delírio, para todos: sem respostas.
Eu, quem sou? Sou o não saber o que sou. Continuo sendo, mesmo perdida no desconhecido de mim. Ainda assim, eu me tenho: sem nome. E me continuo sendo: incógnita.
26/06/2012
Minhas palavras
Eu não conto a ninguém, ninguém sabe. Mas eu sinto e eu sei. Eu não conto, porque em parte, não acreditariam e também, porque eu sei que no fundo não tenho talento para tanto. Mas eu quero. E querendo assim, me faz ficar cada vez mais certa de que só posso querer. Querer e sonhar, alto e cada vez mais alto com as palavras que dormem comigo, que me rodeiam, que choram e sorriem ao meu lado. Que sabem de cada angústia, de casa ferro que me foi enfiado no coração e depois retirado. Elas me acompanham há muito tempo, porém demorou um pouco pra descobri-las. Demorou para usá-las como refúgio, apoio, passaporte, embarque, retorno, viagem, loucura. Usá-las como acalento, amigas, reforço, fonte inesgotável de sentimento.
Me apareceram de repente e eu me apaixonei. Meu próprio lado - no meu pior ou melhor momento - sendo transformado em algo bonito. Confesso, gosto do que leio. Gosto. Não tenho fortes paixões nem amo nada que escrevo. Eu gosto. Gosto mais ainda como me sinto quando termino de chorar e minhas mãos se cansam junto comigo. Gosto quando uma alegria ou surpresa me toma inteira e eu vou lá, botar a companhia das minhas palavras pra fora. Eu afloro. Eu mesma. Seja doce, áspera, seca ou vibrante. Eu estou aqui junto com elas, mas também ponho muita coisa pra correr. Eu me curo. De mim mesma. Eu rejuvenesço, amadureço. Entendo coisas que nunca antes foram compreendidas. Eu encaro meus medos, eu mudo de lado, eu inverto papeis, eu caminho ao acaso, eu sorrio pra escuridão e tudo depois fica claro.
Mas demorou para descobri-las e usá-las. Minha mais fiel companhia de mim mesma, queria mostrar-se... E aos pouquinhos eu fui deixando, e fui gostando e fui sorrindo e hoje somos grudadas. Seja em parede, em agenda, em mural, em cartas, em mãos, em corações. Seja aqui, ou dentro de mim. De minha mente, de minhas veias, de meus passos, de meus montes de lembranças, meus montes de bagunças sentimentais. Hoje quando eu sinto falta, eu as procuro. Quando eu me encontro, eu as procuro. Quando eu sofro, eu as procuro. Quando erro, as procuro. Quando eu as procuro, elas me acham.
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