25/08/2020

Virgem

escorro
toda vez que te observo

fico eu descendo entre as pernas
alcançando o chão
te fitando debaixo
que visão!

você traga, fala, come, anda, para
e eu saio das entranhas
buscando ganhar espaço
ou fazer o sentir ir para além de mim

e quem sabe te alcançar
se derretida estiver também

19/08/2020

Balança

    De canto de olho eu observo, como quem finge nem ouvir a conversa, mas atenta escuta cada detalhe. É como se estivesse chegando em um lugar desconhecido e o instinto aconselha observar as saídas para possíveis perigos, na verdade eu já esquematizei todas as estratégias. Ora despretensiosa, como quem está atrás de uma boa fofoca, ora em alerta, como espera uma catástrofe. Ou como quem já sabe da catástrofe? Não sei... Não sei se sei ou se quero fingir não saber.
    Mas de olhos bem abertos, mirando, encantada, eu me jogo numa deliciosa conversa daquelas de perder de vista ano, dia, pandemia. Ou então me pego solta em um lugar sem nenhuma proteção, mas completamente estasiada a ponto de me sentir em casa. Assim não tem ora isso ora aquilo, essa sou eu apaixonada, deslizando na felicidade, planejando antes de dormir, construindo pontes, devaneando os passos seguintes, sorrindo tão boba, que faz até parecer as coisas terem sentido...
    Ela pende para que lado?

24/07/2020

Queda livre IV

acho que to me apegando aos detalhes depois de você
estão todos na minha cabeça
impedindo de te esquecer
não que antes eu não te lembrasse sempre
é só que agora o tempo parece dilatado

a paixão está correndo longe
quer alcançar o horizonte
eu já disse que é pandemia
perigoso demais ultrapassar limites
e paixão escuta?

é surda, mas enxerga tão bem
faz pirraça dizendo que consegue olhar além
eu ainda estou aqui com medo
mas ela já foi sem mim
feito criança descobrindo algo novo

confesso que estou achando graça
às vezes me deleito nessa alegria desgovernada
outras vezes abro os olhos me certificando
não sei se ainda sei ser queda livre
mas por enquanto teu cheiro no vento permanece meu faro

13/07/2020

Notas pandêmicas V

Amar é viver eternidades. É esquecer-se da morte. Ou aceitá-la. É ver a infinitude do horizonte e ainda assim, caber-se dentro dela. Amar é como ter sucessivas epifanias. Faz parecer ter descoberto o sentido da vida mesmo sabendo que é uma grande incógnita. É encontrar casa ainda que a energia humana esteja por toda parte. É pertencer sem possuir. É dar sem entregar. Amar sempre será compartilhar. Expandir. Repercutir. Ao amar aqui eu amo acolá. Ao amar nesta cidade eu amo em outro país. É assim que funciona a natureza. Amar é natureza. É de nossa natureza. Ao amar esquece da distância, da feição, do tempo, ao amar viajamos para a essência, pousamos no íntimo, nos aproximamos do instinto. Amar é dar beleza a essa matéria viva pensante, que se perde achando que há outro caminho senão esse - amar. Ao amar, parecemos seres luminosos exclusivos e eternos. Esquecemos da morte ou a aceitamos como dádiva. Porque ao amar, a dimensão de passado, presente e futuro parece uma linha semelhante ao horizonte, infinita, em que nos equilibramos, e cair não amedronta, porque temos um oceano inteiro.

02/07/2020

Notas pandêmicas IV

Boiar olhando o céu sem óculos, para que não impeçam os raios do sol ofuscarem um pouco a visão. Abrir o corpo, descansar o corpo, deixá-lo ir. Se balançar no vai e vem das ondas, soltar o controle da vida, reconhecer sua imprevisibilidade. Não se sabe os graus de temperatura do dia, a força da maré, o peso do corpo. O peso do corpo que carrega. Dor. Culpa. Desespero. Não se sabe, mas ao boiar entrega. E entregando deixa ir. O que fica, no mergulho se vai. O sal e a potência da água abraçam a gente e por isso dizem que nós seres racionais não respiramos em submersão. Não há aconchego maior! E aí reside o perigo. Mergulho por muito tempo é bolha. Que seguro seria morar em um mergulho (é como regressar ao útero). Mas não seria imprevisível. Por isso retornamos ao ar, retomamos o ar. Buscando respiro, o céu, a imensidão do horizonte, a incógnita de ser pessoa humana. 

"O que sei: sou do mar. Vivo de saldade."

12/06/2020

Se

    E se por um dia o mundo parasse? Digo, se por um dia as pessoas humanas desaparecessem e com isso também a guerra, a poluição, a disputa por poder, a violência cotidiana, a fome, o câncer, a deterioração da vida, a pandemia desenfreada? Se por um dia somente eu estivesse viva? E caminhasse sem pressa, olhando as ruas vazias, contemplando a cidade sem caos - é possível?
    Se fosse possível ouvir o silêncio, brincar com as preguiças, descansar com as gatas, cantar com pássaros, se fosse possível contemplar sozinha a natureza? Olhar o céu e ver as fotografias das nuvens, os diversos tons de amanhecer e crepúsculo? Se chovesse, como seria dançar nua no meio de alguma estrada? Para onde eu iria?
    E se andando, sem destino nem pressa, sabendo que estaria sozinha, se eu esquecesse que há bairros, fronteiras, que há cidades e países, se eu seguisse andando sem perder o rumo, já que o rumo seria conhecer os lugares agora sem nomes, se andando assim por acaso eu te avistasse ao longe?
    Se o mundo também estivesse por um dia parado para ti, sem saber dessa sorte ou desse sonho, a gente se encontrasse em qualquer esquina da vida estancada? Como seria te tocar depois dessa longa espera? Qual seria teu cheiro com o ar puro? Como seria transar numa praia sem ser deserta porque deserta é a ausência de gente? E quantas conversas não teriam limite temporal só por sabermos que por um dia o mundo seria nós?
    E se esse dia fosse hoje?