Há vida uma vida inteira pós-pandemia e nela eu quero conhecer o Club Lucille em Buenos Aires aprender a dirigir adotar uma gata fazer uma coleção de canecas escrever um livro de poemas estar em dois lugares ao mesmo tempo colar estrelas no teto do meu quarto ler O segundo sexo de Simone de Beauvoir comprar um fusca conhecer um elefante fazer sexo tântrico parar de fumar deixar o cabelo grande colocar um piercing no umbigo falar fluentemente espanhol comprar um all star praticar ginecologia autônoma visitar Cuba escrever um conto fazer tatuagens voltar à Barra de Mamanguape comemorar todos os meu aniversários ler de novo A paixão segundo G.H. de Clarice Lispector descobrir minha paleta de cores fazer terapia por toda vida viajar sozinha rezar como quem se alimenta e dorme conhecer a Bahia fazer aula de canto ler Paulo Freire praticar sua pedagogia ver estrelas cadentes arco-íris lua cheia por do sol fazer um mochilão pela América Latina escrever minha autobiografia me casar por que não? me culpar menos me amar mais acreditar em mim sempre.
09/04/2020
06/04/2020
Vigésimo dia
O mundo doente, distanciamento social, um momento inédito na história da humanidade e eu sigo contando os dias. Porque um a mais significa um a menos e porque quando eu penso que ao cruzar o portão vou poder te encontrar, me parece menos sofrido encarar os dias imensuráveis. Planejo momentos como se ainda fosse possível planejar...
Fazendo presença no sonho, entrando em contato disfarçadamente, falhando em letras de músicas, errando em te registrar nas palavras, me enganando em te cravar na mente, traçando planos impossíveis para te ver, dispondo de energia e tempo para te manter comigo, prossigo contando os dias...
Essa é a natureza doentia da paixão, essa a é essência do que me causas... Sem chão, sem proteção, ainda mais desequilibrada. Avalio os riscos, sei que estou entregue então de que adianta se já apostei todas as fichas? Descubro que os riscos se ampliam se não disponho mais de fichas, no entanto me mantenho contando os dias...
Fazendo presença no sonho, entrando em contato disfarçadamente, falhando em letras de músicas, errando em te registrar nas palavras, me enganando em te cravar na mente, traçando planos impossíveis para te ver, dispondo de energia e tempo para te manter comigo, prossigo contando os dias...
Essa é a natureza doentia da paixão, essa a é essência do que me causas... Sem chão, sem proteção, ainda mais desequilibrada. Avalio os riscos, sei que estou entregue então de que adianta se já apostei todas as fichas? Descubro que os riscos se ampliam se não disponho mais de fichas, no entanto me mantenho contando os dias...
Apostei nessa montanha russa de viver apaixonada, quantas descidas e subidas nesse curto período! Vou te encontrando ou
te colocando no meio dos meus dias cheios de mesmice, porque é assim que
meu coração dispara. Anunciando que todos os riscos estão no meu colo,
que eu estou ciente e, conscientemente, ignorando todos. E que permanecerei a contar os dias...
Doente estou eu.
Doente estou eu.
30/03/2020
Período fértil
em março os dias findos são de chuva
e logo eu que não umedeço
também ando molhada
o terreno ficou fértil
mas não é qualquer coisa que nasce
porque não é qualquer coisa que planta
logo não é qualquer pessoa que germina
com os dedos se vai fazendo o processo
aduba, sementeia, planta, rega
contorna, adentra, pressiona, molha
em março os dias findos anunciam o fim do verão
e como eu não umedeço
agradeço o período contrário a estiagem
27/03/2020
Décimo dia
Seus poucos rastros
me mantém com o pensamento vivo
tentando te encontrar na pouca memória
Estranho ser pouco o tempo
e grande a vontade
Busco descobrir que rumo seguir
que seja o certo
Deixar o tempo que será muito minar a vontade
até que seja pouca?
Ou domar o tempo para que seja insuficiente
em abrandar o querer?
Na dúvida traço percursos
toco alfaia
tomo um vinho
busco teu cheiro
E cá me pego eu
acompanhando os teus rastros...
Quando vi meus muros desconstruídos
a vida ergueu outros
Mas o coração segue selvagem como de Belchior
trilha os comandos da alma
se esquivando da razão
A bússola está viciada
direcionando sempre ao mesmo ponto
e me entregando de bandeja
Ela só atende a esse ímã
que é você
me mantém com o pensamento vivo
tentando te encontrar na pouca memória
Estranho ser pouco o tempo
e grande a vontade
Busco descobrir que rumo seguir
que seja o certo
Deixar o tempo que será muito minar a vontade
até que seja pouca?
Ou domar o tempo para que seja insuficiente
em abrandar o querer?
Na dúvida traço percursos
toco alfaia
tomo um vinho
busco teu cheiro
E cá me pego eu
acompanhando os teus rastros...
Quando vi meus muros desconstruídos
a vida ergueu outros
Mas o coração segue selvagem como de Belchior
trilha os comandos da alma
se esquivando da razão
A bússola está viciada
direcionando sempre ao mesmo ponto
e me entregando de bandeja
Ela só atende a esse ímã
que é você
22/03/2020
Pandemia
olhando da janela do quarto novo
me parece que tudo é devaneio
o tempo passa lento
e a distância se torna maior
me certifico do amor
torço pelo reencontro
temo a morte
combato a ansiedade
planejo a semana
o tempo à passos lentos
são só cinco dias eu repito
a distância à passos largos
estamos na mesma cidade
eu, família, amizades, quereres
estamos no mesmo país
brasil que somos
superando mais um colapso
todas as pessoas estão no mundo
distantes
contando no relógio
esse tempo de pandemia
o que salva é lembrar o mar
o som das ondas
o mergulho
o vento forte
as pegadas na areia
tudo é passageiro
me parece que tudo é devaneio
o tempo passa lento
e a distância se torna maior
me certifico do amor
torço pelo reencontro
temo a morte
combato a ansiedade
planejo a semana
o tempo à passos lentos
são só cinco dias eu repito
a distância à passos largos
estamos na mesma cidade
eu, família, amizades, quereres
estamos no mesmo país
brasil que somos
superando mais um colapso
todas as pessoas estão no mundo
distantes
contando no relógio
esse tempo de pandemia
o que salva é lembrar o mar
o som das ondas
o mergulho
o vento forte
as pegadas na areia
tudo é passageiro
19/01/2020
Homofobia
é difícil usar essa palavra
porque exige reconhecer a podridão do mundo
e que ela me atinge como uma tsunami
quem ousa repudiar o feio
para construir o novo, o belo
- e não há maior beleza do que a liberdade -
se espanta e se desmorona
quando encara as prisões
que pela pequeneza dos seres humanos
nos imputam
é difícil verbalizar, escrever, reconhecer
essa palavra
nas teias da vida
estou presa
desejam cortar minhas asas
mal sabem que eu
e as pessoas
foram e são feitas
para voar
ela não vai me manter no chão
daqui observo o céu
o bem está lá
não vou esmorecer
tenho a força e a coragem para construir saídas
que me levarão a serenidade
de ser quem eu sou
e amar conforme meu coração pulsa
porque exige reconhecer a podridão do mundo
e que ela me atinge como uma tsunami
quem ousa repudiar o feio
para construir o novo, o belo
- e não há maior beleza do que a liberdade -
se espanta e se desmorona
quando encara as prisões
que pela pequeneza dos seres humanos
nos imputam
é difícil verbalizar, escrever, reconhecer
essa palavra
nas teias da vida
estou presa
desejam cortar minhas asas
mal sabem que eu
e as pessoas
foram e são feitas
para voar
ela não vai me manter no chão
daqui observo o céu
o bem está lá
não vou esmorecer
tenho a força e a coragem para construir saídas
que me levarão a serenidade
de ser quem eu sou
e amar conforme meu coração pulsa
11/01/2020
Dia de lua cheia
Esse ano que passou aprendi a ser só.
Ainda estou a entender o que foi solitude e o que foi solidão, mas cada
vez mais firme na consciência de que enquanto condição existencial me
ponho no lugar de descobrir essa potência. Não mais lamentar...
Foi o que me colocou em um nível extremo de encontrar o amor próprio que julguei já ter muito... Que engano! Ele tem mais a ver com se entender neste mundo, se permitir ao medo, ao choro, a insegurança, entender que o sofrimento é passagem, do que se enxergar bela, interessante e autossuficiente.
Foi o que me colocou em um nível extremo de encontrar o amor próprio que julguei já ter muito... Que engano! Ele tem mais a ver com se entender neste mundo, se permitir ao medo, ao choro, a insegurança, entender que o sofrimento é passagem, do que se enxergar bela, interessante e autossuficiente.
Esse ano chega com a sensação para mim, enquanto boa
geminiana, de que a construção do ser só vai me permitir compartilhar
as experiências com maior maturidade e poder de decisão. Não estou mais
sendo levada pela onda do mar, estou agora nadando com destino em mente.
Se meu percurso vai ser alcançado, aí já dizem dos mistérios de
viver...
Enxergo quem sou, quem me tornei, o que desejo ser e aonde quero chegar. O tempo é meu grande amigo.
Enxergo quem sou, quem me tornei, o que desejo ser e aonde quero chegar. O tempo é meu grande amigo.
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