O mundo está cheio de cacos
Pisa-se e não corta
Corta-se e não sente
Sente-se e não grita
Grita-se e o som se abafa.
Propaga-se o som enfim,
do mundo em cacos de vidro.
Pequenos cacos de mundo dentro do vidro.
24/09/2011
19/09/2011
Pedido
Os pés pedem menos calos e caminhos mais suaves.
As mãos por um rosto real, sem expressões fingidas.
Os ouvidos pedem verdade, palavras sentidas!
O corpo pede presença, aconchego, aperto...
O corpo pede amor de peito e braços abertos.
O corpo pede, pede por você gritando como se ouvistes...
O corpo pede, mas você não vem - e nunca mais virá.
06/09/2011
Mágoa, inconstância, tristeza, decepção, raiva, dor, rancor, fraqueza, pesar, medo, disritmia, pudor, recato, obscuridade, sonho, oscilação, estremecimento, surpresa, incompreensão, dúvida, espanto, agonia, desespero, impulso, agitação, ímpeto, fraqueza, vulnerabilidade, solidão, saudade, saudade, saudade, saudade, saudade, saudade, saudade, saudade, saudade, saudade, saudade, saudade, saudade, saudade, saudade, saudade...
02/09/2011
Findável enjoo
Começa como bolhas de sabão, vira uma espuma bem densa e vai subindo pela garganta, como uma ânsia de colocar tudo pra fora. Essa espécie de tsunami interno que vai recolhendo toda a água pra depois formar uma grande onda, é o que eu desejo expulsar de mim - e tem o mesmo gosto salgado do mar.
Nesse plágio mal feito do oceano existem as chamadas conchinhas, que acolhem, me cuidam. O que queima é você, água-viva. Que arde, flameja, esse líquido picante queimando tudo por dentro. Você é que provoca vontade de despejar, você que transforma meu calmo marzinho numa reviravolta. Agita, sacode, estremece - um maremoto descrito.
Quem sabe nessas subidas e decidas da vida, eu vomite de vez todo esse mal que me consome, essa angústia estomacal que me segue, me deixando sempre mais enjoada. Enjoada até de mim mesma, de você. Quem sabe no balançar dos ventos fortes eu estremeça as pernas, me agache e a dor misturada com revolta incômodo aflição faça enfiar o dedo forçando pôr pra fora tudo que atormenta.
Pode até ficar um pequeno mar. Mas primeiro vem meu conforto, minha tranquilidade, meu bem-estar. Nada de algo se agitando dentro do meu ventre, só por enquanto eu ainda suporto. Por enquanto me entorpeço de efervescente. Chegará finalmente, o dia em que tudo será calmaria. E eu seguirei gentilmente, com toda delicadeza possível. Então, tudo estará firme novamente. Não há firmeza maior do que não tê-lo mais aqui dentro.
23/08/2011
Extremidade
Tá tudo bem? Se sente melhor?
Olha, queria te dizer que se tranquilize. Esse medo bate mais forte quando a gente não tá em sã consciência. Daqui a pouco passa. Daqui a pouco essa distância que sentias não existe mais. Se acalma, é fácil porque lá no topo é onde você está, eu ainda continuo rastejando incansavelmente pra ir o mais longe que puder. Não, não por você. Não pra te encontrar. Mas pra mostrar. Mostrar a mim mesma que sou forte de cair e ir escalando montanha acima, só pra ficar do teu lado e olhar. Olhar toda a paisagem que de baixo não teria essa vista, jamais. Só pra te olhar, e ver que sim, eu poderia colocar lembranças, sentimentos, recordações pra um bom passado. Ótimo, aliás. Mas não tem pressa não, deixa eu sentir essa dor cortando pra tudo ficar mais forte. Vem ventania, chuvas torrenciais, mas eu me cravo nas paredes, subindo encharcada - de lágrimas -, com frio, com sede de carinho, os dentes batendo com essa insuportável, insuportável desesperança. Mas seguir é o que posso e devo. Tudo o que eu consigo - embora ainda esmorecidamente. Às vezes o vento trás aqui pra baixo - ou já estou no meio do caminho? - o seu cheiro, e dói. Inalo rasgando o peito, completa nostalgia. Vez em quando é assim, puro sofrimento. E me questiono, você se pergunta se eu estou bem, se ando me sentindo melhor?
29/07/2011
O presente interminável
Que eu me lembre, eu sempre disse permanecer intacta independente de qualquer circunstância. Mas ai vem o amor e desfaz tudo que foi dito, pensado, tudo que foi prometido. E que engraçado, mas diante dele eu estou de mãos atadas... Agora eu me preocupo, eu choro, eu sofro, eu cedo, eu torço, eu mudo. Eu mudo o que sempre soube que jamais mudaria. Eu, logo eu que sempre quis essa independência e que quem me quisesse que fosse desse jeito, hoje eu busco tá me contorcendo só pra te enlaçar. Mas poxa, às vezes dói e cansa tá sempre costurando a fita a cada vez que rasga, que tora, que puxa. A cada vez que você decide se soltar. Cansa ter que dá o nó quando você já pensa em desfazer o laço.
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