eu existo enquanto humana
quando escrevo
deixo de ser só um bicho que
observa
corre
escuta
come
fode e reza.
eu existo enquanto humana
quando escrevo
deixo de ser só um bicho que
observa
corre
escuta
come
fode e reza.
Não sei o dia em que você juntou suas roupas e foi embora. Eu tinha quatro anos e não tenho nenhuma lembrança, mas sei que ali eu morri. O que recordo, quando maior, é de minha eterna saudade e a dor da despedida. Não sei se criei ou se o filme de ir seguindo dentro do carro e te dando tchau, realmente existiu. Sei que sempre tive a sensação de te abandonar. Que estranho, né? Eu era a criança e você o adulto, morando isolado. Como até hoje. Eu sempre fico pensando de onde vem minha dor em não ser amada e o meu medo de ser abandonada. Cada vez que chego a mais respostas, escrevo.
A melhor memória que tenho é descendo um tobogã de lama e mergulhando no rio. Você fotografando eu e meus irmãos. Fico indagando o quanto de memórias eu apaguei para não lembrar a dor de não ter você ao lado. Um pai sazonal ainda é um pai para a realidade de hoje. Mas eu sei das faltas. Eu ainda sinto elas. Será que deixarei de sentir um dia? As vezes penso em te ligar e dizer: eu também sei te abandonar. Que estranho, né? Isso diz muito sobre minha incapacidade de ser filha.
Essa é a primeira carta de não-amor que escrevo para você. Vinte quatro anos depois, porque agora eu sei escrever e sei de mim.
Percorro a casa resmungando: "tudo sou eu!". Lembro minha mãe e penso: "estou me tornando igual". Mas no sopapo estendendo a calcinha recordo: "ela têm três crias". Nunca hei de saber como aguentou ter ela e ainda mais três. Nesses beliscões figurados que a vida me dá, eu sei da sorte de tê-la.
É difícil me ter. Tudo sou eu! E para ela, que além de tudo ser ela, tínhamos nós também? Temos nós também. Até o fio da vida se cortar, ela nos terá. É pesado ser eu. Mas eu tenho ela. Ainda. Desço do banco, olho as roupas para lavar, a pia de pratos... Eu não estou sozinha.
lembra daquele dia em que estávamos no mar
depois de você ser queimada por uma caravela?
não sei se recorda minha expressão
agora também me encontro no misto de
querer aproveitar a água em um dia lindo
mas não ser marcada pelo desconhecido
é que eu apaixonada me perco de mim
e fico na espreita
com o corpo metade submerso
metade no ar
achando que algo vai me encontrar
que não seja eu mesma
eu estou com medo
de mergulhar nesse fogo
parece ser tanto
que eu posso me queimar
paixão é assim
a gente sai de si e olha mais para a outra
e eu já deixei muito de me olhar
não é sobre você
eu não tenho medo de te aprofundar
na verdade estou inundada de curiosidade
naquele dia dentro do mar
por trás do meu olhar de medo
eu estava te observando existir na minha frente
e deu tempo de perceber o quanto
você combina com a coragem
Ainda tenho muito o que caminhar na aceitação de que não sou uma. Não entendo o quanto expando e as vezes me parece fazer todo sentido existir, como também me apequeno por achar que o mundo é muito custoso.
Hoje cedo da manhã fui trabalhar e olhei nos rostos das pessoas sonolentas e um tanto tristes. Pensei, será que vejo meu rosto no delas?
Passei o dia não querendo sentir, como se eu pudesse. Eu acho que posso. Tem essas duas aqui, a que sente demais e a que quer agir na vida porque amanhã já é terça.
Hoje eu fiz terapia em confronto com a que acha que amanhã já é terça.
Chorei como a mulher que sou, a que chora tentando não ser atropelada pela dureza da vida. A que se derrete inteira e esvai.
Amanhã não sei a que vem. Não quero saber. Hoje ser já é muito.