meu corpo é leve
minha idade é pouca
meus pensamentos são muitos
meu coração é pesado
e a estrada é longa.
minha sede é grande
minha fome é constante
minha escrita é urgência
e a noite sempre chega.
torço pela primavera...
meu corpo é leve
minha idade é pouca
meus pensamentos são muitos
meu coração é pesado
e a estrada é longa.
minha sede é grande
minha fome é constante
minha escrita é urgência
e a noite sempre chega.
torço pela primavera...
Do lugar que eu me encontro, é tudo tão escuro e sem caminho, que o único alívio é pensar que sou poeta. Não sei no que sou boa, não sei que lado vou seguir, não sei porque nunca pensei minha vida como quem pensa no que gosta, mas ainda bem que eu escrevo.
Acho que é tarde e já não tenho mais tempo, no entanto faço esforço para minha mente acatar que só carrego 29 anos e ainda posso descobrir o que fazer nesse mundo que me nutra. Oscilo tanto entre uma coisa e outra, acabo por conceber nada. Acho que aceitar o que não quero seja um passo. É Chico Science, talvez eu já não esteja no mesmo lugar.
Muitas vezes me encontrei perdida. Como todas as outras, essa também parece não ter saída. Choro e rio. Toda dor é diferente e eu já enfrentei tantas. Choro e rio. Há anos eu escrevo para achar a saída de minhas dores. Choro e rio. Um dia me encontro - e torço que não demore tanto.
nosso encontro é como rio
com mar
ora sou água doce
ora sou água salgada
assim também é você
estou em correnteza
não tem distância que desvie esse curso
me
lancei
nas
tuas
águas
ao mesmo mesmo tempo que espero
não sei como configura o céu
mas me faz pensar
que vênus se encontra bem posicionada
quando você está de pernas abertas
Eu sempre amei torto. Tortíssimo. Não sei amar em retidão. Eu amei sempre em emaranhado. Com outros sentimentos que se misturam. Apego, ciúmes, raiva. O amor deixa de ser amor por estar emaranhado com outros sentimentos? Existe amor só amor? Não sei, sempre amei assim. Muitas vezes senti culpa por não saber amar. Até hoje não sei. Não saberei. Acho que não se aprende a amar.
É difícil saber quando o amor chega, mais ainda quando o amor se vai. Ver o amor emaranhado sem amor muitas vezes fez eu me apegar aos outros sentimentos, achando que ainda amava. O vazio do amor é coisa doída que faz a gente desejar sentir qualquer coisa, mesmo que coisa mais doída ainda de sentir. Talvez o amor se transmute, reivindicando um outro emaranhado.
Se aprendi que quando amo mudo a mim, aprendi com meus grandes amores. Lembro deles e desejo um espaço novo em minha vida. Grandes amores deixam um dia de serem amores? Acho que talvez se emaranhem outros sentimentos, maiores e que precisam de mais entrelaçados. Amor com amizade, cuidado, intimidade de quem já conhece a doçura e amargues daquela alma.
Cansei da culpa de amar torto, impreciso, falho. O amor que entreguei não me arrependo, ainda que fosse coberto com o novelo de outros sentimentos. Posso tecer novos emaranhados, aprender em crochê modelos mais ajustados, mas não sou habilidosa com a agulha. Me interessa mais colocar o fio na ponta, movimentar as mãos, cruzar as linhas. Ver a mistura das cores.
Não sai adorno bonito. O que sai quando amo, é o que sou. O que sou muda, inevitavelmente. Então sim, meus grandes amores serão ainda grandes amores, só que de grandezas fiadas de um amor com linha diferente.
E quando amo é com o que sou, posso amar adiante um outro grande amor com emaranhados novos, mas as mãos de quem já sabe que mais vale os olhos no instante e a beleza da persistência. Não sei amar bonito, não quero saber de formato. Todo grande amor é como a utopia de aprender a amar pela primeira vez.
eu existo enquanto humana
quando escrevo
deixo de ser só um bicho que
observa
corre
escuta
come
fode e reza.
Não sei o dia em que você juntou suas roupas e foi embora. Eu tinha quatro anos e não tenho nenhuma lembrança, mas sei que ali eu morri. O que recordo, quando maior, é de minha eterna saudade e a dor da despedida. Não sei se criei ou se o filme de ir seguindo dentro do carro e te dando tchau, realmente existiu. Sei que sempre tive a sensação de te abandonar. Que estranho, né? Eu era a criança e você o adulto, morando isolado. Como até hoje. Eu sempre fico pensando de onde vem minha dor em não ser amada e o meu medo de ser abandonada. Cada vez que chego a mais respostas, escrevo.
A melhor memória que tenho é descendo um tobogã de lama e mergulhando no rio. Você fotografando eu e meus irmãos. Fico indagando o quanto de memórias eu apaguei para não lembrar a dor de não ter você ao lado. Um pai sazonal ainda é um pai para a realidade de hoje. Mas eu sei das faltas. Eu ainda sinto elas. Será que deixarei de sentir um dia? As vezes penso em te ligar e dizer: eu também sei te abandonar. Que estranho, né? Isso diz muito sobre minha incapacidade de ser filha.
Essa é a primeira carta de não-amor que escrevo para você. Vinte quatro anos depois, porque agora eu sei escrever e sei de mim.