eu não estou com medo de te esquecer
eu estou com medo de descobrir quem sou eu
sem você
já estive em três cidades
chorei de doer o peito
tomei café da manhã como quem dormiu
e acordou numa casa em frente ao mar
carreguei minha mala pesada
ela deve estar mais pesada do que eu
leva tempo para carregar só o que importa
não caí no mar
nem caí no sono
eu não caí
impressionante como que meu peso
não revela minha força
eu já estive em três cidades em menos de um dia
finalmente minha casa sou eu
ai meu coração
que quer tanto ir por aí seguir o fluxo
e eu que prendo e sofro
porque ainda não tenho corpo nem mente compatível
com o tamanho dele
onde quer que piso sinto saudade do que conheço
o problema não é a despedida
nem a rodoviária
nem a viagem
é a impermanência
não sei mais como que meu coração não explode
acho que meu corpo e minha mente fizeram um acordo
estão se entendendo com ele
vão chegar no tamanho de eu finalmente migrar em voos
onde lá estarei em pássaros
a ferida secando
como coça
e eu querendo tirar a casquinha
não vou criar outra fissura
quero cuidar de mim
não quero mais cuidar da gente
a gente foi
a ferida já não sangra
preciso chegar ao ponto de sentir só a cicatriz
a super lua nascendo
as nuvens de inverno partindo-a
e a ponta do seixas na mesma altura
a onda me alcançou pronunciando
sentir é contraditório
é tão vivo estar aqui presente
que me atormento e me alegro
eu amo esta cidade
o som do mar
o vento da maresia
e o quanto me sinto perto de mim
amar a natureza é me amar
amar minha natureza é amar
amar é de minha natureza
pingos de sal
molhado da areia
vento úmido
hoje estou pura água
lua cheia mexe comigo
eu queria gozar
para escorrer
mas nem me tocar eu consigo
haverá um dia
que sentir muito
e querer tanto
não será mais culpa
por um dia tua beleza foi suficiente
o desejo me preenchia
mas enquanto humanas
abrir os vazios cuidado requeria
como nos rasgamos em nossos abismos
e tentamos nos entulhar com companhia
não sei desmembrar em cores
para ver o que pode ser reaproveitado
tudo parece cinza, contaminado
vejo o carro chegando
recolhendo e levando
eu a olhar os sacos
abafados indo embora
estou no meio da rua
parada e em pé
sofrendo com as mãos sujas
e por não poder recuperar o que chamei de amor
tudo sobre você foi água
um dia rio
nem sempre doce
hoje assoreada