07/08/2021

Queda livre V

Essa metáfora do amor como um pulo do penhasco só me levou ao chão. E eu julgando ser coragem, sempre subindo novamente ao topo, cada vez mais cansada. Me entregando para o amor. Eu não sei em que lugar eu me encontro. Eu nem sei se me serve mais essa coisa de se jogar, sem abrir os olhos. Voar me interessa, voar é meu destino. Mas ir em busca do amor a outra pessoa, não sei mais se faz sentido. Acho que usei a palavra coragem no lugar de anulação. Me jogar do penhasco com toda adrenalina, parece ser mais uma forma de esquecer da dor de ser eu. E de também encontrar a delícia. Pular representa a espera de ser salva? Deve ser por isso que sempre fui ao chão. Dura realidade, nestes estrondos que julguei serem voos, compreender que era uma forma de me engaiolar. Sofrido me deparar com a verdade de que jamais alguém me salvará. Não sei em que parte eu me encontro. No pulo, no chão, no topo. Eu sei que me acaricio cada vez menos com esse vento e não me parece ele o faro para o amor. Voar é meu destino, essa é a minha viagem. Não em busca de alguém, mas sim, de mim mesma.

22/06/2021

Para meu eu do futuro

Agora você não entende e nem cabe entender tudo na vida. Quando adolescente em suas infindáveis leituras e a mania de eternizar palavras na parede você escreveu "Perder-se também é caminho". Clarice Lispector fez sentido para você naquele momento, mas não tanto quanto hoje. Eu diria que talvez só se perdendo para encontrar seu verdadeiro caminho. Agora você não compreende e talvez nem faça questão quando em  algum cruzar de rua, entrando numa esquina, naquele instante em que a perspectiva do olhar muda, você sinta essa verdade. Cada passo em busca de algo que ainda não via, mas que inexplicavelmente era o necessário para chegar aonde agora eu estou e poder te dizer que você se encontrou. Eu não sei que estrada, que cidade, que continente eu piso, que ar, que língua, que amor eu falo. Eu sei que você sabe, de alguma maneira você sabe. E é em busca deste instante que você não pode parar. O depois é uma viagem deliciosa para um lugar desconhecido, com muita abundância e curiosidade de observar o mundo de possibilidades.

04/06/2021

Retalhos

Eu não sou uma mulher
Essa que é modelo social
Essa que modelo socialmente

Eu não sou uma mulher
Essa que não cresce
Essa que só pode ser grande

Eu não sou uma mulher
Essa que eu planejo
Essa que me planejam

Eu só sou uma mulher
Essa que vos fala
Essa que se muda

Eu só sou uma mulher
Retalhos de uma mulher
Uma mulher em retalhos


16/05/2021

Joana-de-barro

Eu sou arquiteta do amor
Planejo
Idealizo
Projeto
Olhar visionário
Enquanto arquiteto,
eu canto.

Eu sou pedreira do amor
Carrego
Construo
Sustento
Mãos nutritivas
Enquanto ergo,
eu voo.

Um ser que ainda mistura
no mesmo barro
liberdade e estabilidade.

Não canto e nem voo
como posso.

Não entendo que estabilidade
nunca existiu
e a liberdade só será possível
quando depurar o barro.

Mas mantenho a perseverança,
ainda sou uma jovem pássara.

31/03/2021

Curandeira

Hoje é o último dia de março. Já passou o ano novo, inclusive astrológico. Não é meu aniversário. Mas me sinto renascendo. Voltando ao útero. Por isso a ansiedade e o medo. Então me lembro que não é nascer, é renascer. Não estarei pronta, mas me permito pela primeira vez voltar para poder me tornar. Passado, presente e futuro estão no agora, o tempo não é linear. No entanto, a história também não se repete. Me sinto renascendo. Se formar uma criatura humana de corpo e alma doi. Não estou pronta, só que já não sei mais parar de olhar para cada ferida na alma com esse corpo de 26 anos e estancar, limpar, costurar e curar cada uma delas. Parecem não ter fim... Estão por toda parte. Mas eu sou curandeira.

13/03/2021

Escrevedor

Escrever sempre foi cura. Por isso um planeta cheio de dores, que apenas verbalizadas não seriam tangíveis. As dores só são palpáveis para mim, quando escritas. Mas não escrevo para ser compreendida. Escrevo para compreender. Uma vez escrevi que sou uma mulher que só sei falar de amor ou de dor. Podendo ser, a depender, uma coisa só. Mal sabia eu, naquele momento, como sei agora, que aprendi o amor como dor. Eu nem tinha sido parida e já não fui amada, nem desejada, nem alimentada. Não sei ao certo, mas acredito que vim ao mundo mais cedo por sobrevivência. O fato é que eu estava desnutrida de alimento e amor. Talvez o útero não tenha sido um lugar seguro para mim... Foi ali onde tudo começou. Achar que dor é amor. Depois de longos anos eu descobri minha ferida primordial. Ou melhor, acessei. Escrever sempre foi romper com a falta. Com o desamparo. Com a carência. Com a infelicidade de ser indefesa perante a vida e ainda assim, ter que lutar por ela. Viver é isso, afinal, desde a concepção. Escrever sobre a dor, escrever com dor, escrever para a dor, escrever pela dor, escrever dor. Até que ela se cure. É para isso que eu escrevo, para me alimentar das palavras e saciar a fome de ser amada. Os búzios apontaram que eu tenho um lado escrevedor. Nunca fui escritora. Nem poeta. Eu sou uma mulher em busca de finalmente cortar o cordão umbilical que conecta o amor à dor.

12/03/2021

Lar

Eu nunca fui uma mulher de grandes sonhos. Não sei se existem sonhos grandes e pequenos sonhos. É certo que entre eles há a realidade. Mas acho que sonho ultrapassa a realidade.

Eu sempre fui uma pessoa de sonhos. A realidade nunca me limitou, embora ache que por muitas vezes ela faça morrer alguns sonhos que rebentaram. Porque sonhos são como crianças, novas no mundo e cheias de sabedoria. A gente é que adultece. A gente é que desiste.

Eu sempre tive sonhos, mas o maior de toda minha vida é ter um lar. Acho que é o mais bonito também. E o mais dolorido. Ter lar é bem maior do que ter uma casa. É quase como ter um lugar no mundo. Toda andarilha precisa de repouso. Eu estou numa busca incessante do meu.