Luedji Luna
Mar
Clarice Lispector
Barra de Mamanguape
Amizades
Alfaia
Lua Cheia
Dançar
Yoga
Cozinhar
Bicicleta
Beautiful Chorus
Escrever
e entre algumas outras coisas,
Você.
03/10/2023
Cura
19/09/2023
Escritório
Entro um pouco depois de 22h no prédio e já me sinto aquecida. O frio dessa cidade me faz gostar um pouco daqui, no entanto me reconheço mais triste. Enquanto penso, vou subindo dois lances de escada e vem uma pontada de cólica. Pauso. Subo mais um lance de escada. Pauso. Tal qual tem sido meus dias. Um por vez. Subo o último lance de escada. Procuro a chave, abro o apartamento, entro. Lembro mais uma vez da sensação de desamparo que é estar em casa e não se sentir em casa. Logo eu, que quis tanto a minha casa, móveis, plantas, som, paz. Como não me sinto feliz? Por que não me sinto feliz? Apoio a bolsa no sofá, tiro a roupa, vou ao banheiro, faço xixi e penso em dormir para esquecer. Mas nem dormir tem sido bom. Logo eu, que sempre dormi tanto e tão bem.
Levanto e decido ir ao escritório escrever. Escrever sempre me salvou. Então abro a porta e me vejo deitada em posição fetal. No chão frio e no escuro. Me vejo com um medo de criança, como se houvessem fantasmas, monstros, bichos. Como se a fantasia fosse a realidade e ninguém abrisse a porta, tão pouco acendesse a luz. Eu não grito nem me movo, encolhida permaneço olhando o escuro abraçada ao medo. Em pé com a mão no trinco me fito deitada, me vejo tremer de frio e dor. Não sei o que fazer comigo. Essa é uma angústia velha, eu não sei o que estou fazendo comigo. Me demoro tanto olhando atônita que começo a sentir também frio e tremores. Em pé ancorada no trinco gelado da porta nesse frio campinense na merda desse apartamento só meu. Que diabos de sonho foi esse que eu desejei? Esse sonho é meu? Essa cidade, esse emprego, esse apartamento, esse frio?
Busco o cobertor no quarto e enrolada volto ao escritório. Acendo a luz. Me aproximo de mim e penso em me perguntar o que preciso, mas sei que não conseguiria responder. Quando nada rompe o silêncio, o que mais vale são os gestos. Deito comigo mesma, em conchinha, nos cubro com o cobertor que abarca essas eus pequenas, magras, medrosas, tristes e que já não sabem o que é temperatura, o que é físico, o que é emocional e o que é realidade. Deitadas ficamos até nos aquecermos, abraçadas. O frio passa depois de um longo tempo. Já não trememos. Então minha eu vira de frente para mim e nos olhamos nos olhos, tão fundo que só se pode olhar assim para quem muito conhecemos. Tão fundo que enxergamos a resposta. Não temos respostas. Nossos olhares são desespero e angústia, mas já não temos frio. Já não estamos no quarto escuro e trancado.
A mulher que sou continua deitada com a criança mulher, olhando com e nos olhos inchados de tantas lágrimas. Há um cobertor de amor nos cobrindo, que serve por enquanto para não morrermos. É o suficiente. Se eu me salvei da morte do frio, eu vou me salvar dessa tristeza que parece ser infinda.
12/09/2023
Depressão
31/08/2023
Entre
Eu moraria entre teus seios.
Se você deixasse
neles me esqueceria
como quem acorda sem saber
ano mês dia.
Passearia no cheiro
alcançaria o formato
ancoraria na ponta
e me encontraria na certeza
de que são os mais lindos
que já experimentei na vida.
E se um dia você me dissesse
pra ir embora
procurar outro meio
circular em outro canto
seria então na saudade
entre teus seios
que eu moraria.
02/08/2023
Ecdise
a mulher que quero ser
é maior do que a que eu sou
a sensação é de que estou
cortando a carne
rasgando a pele
para me fazer grande
as vezes quero correr
até não sentir mais meu corpo
até esquecer que tenho um
por vezes na intenção de me achar
por vezes na intenção de simplesmente
ir cada vez mais pra longe
de quem quero ser
25/07/2023
Primavera
meu corpo é leve
minha idade é pouca
meus pensamentos são muitos
meu coração é pesado
e a estrada é longa.
minha sede é grande
minha fome é constante
minha escrita é urgência
e a noite sempre chega.
torço pela primavera...
03/07/2023
Poeta
Do lugar que eu me encontro, é tudo tão escuro e sem caminho, que o único alívio é pensar que sou poeta. Não sei no que sou boa, não sei que lado vou seguir, não sei porque nunca pensei minha vida como quem pensa no que gosta, mas ainda bem que eu escrevo.
Acho que é tarde e já não tenho mais tempo, no entanto faço esforço para minha mente acatar que só carrego 29 anos e ainda posso descobrir o que fazer nesse mundo que me nutra. Oscilo tanto entre uma coisa e outra, acabo por conceber nada. Acho que aceitar o que não quero seja um passo. É Chico Science, talvez eu já não esteja no mesmo lugar.
Muitas vezes me encontrei perdida. Como todas as outras, essa também parece não ter saída. Choro e rio. Toda dor é diferente e eu já enfrentei tantas. Choro e rio. Há anos eu escrevo para achar a saída de minhas dores. Choro e rio. Um dia me encontro - e torço que não demore tanto.