05/07/2022

Caldo

Hoje você mergulhou em mim junto com o sol e a cerveja. Acordei do cochilo pelo sonho ruim que tive contigo. Queria que essa cidade não tivesse tua marca. Nem teu cheiro. E que voltar da praia não lembrasse teu sexo. Ai que ressaca! Acho que tive sede tua, mas nem sequer te lambi.

Você atravessou quando eu estava cruzando o busto. Ou antes, quando entrei no uber. Não sei. Talvez nessas idas e vindas eu te deixei em alguma parte da viagem e no meio do choro, não te vi ficar na estrada. A caminho daqui, você sentou ao meu lado e nem percebi o momento exato.

A saudade dessa terra me distraiu de tua presença.

Não quero você do meu lado, mas não faço alarde para ir embora. Que a saudade venha, que me atravesse, que eu me jogue em uma ressaca, que enjoe e que vomite. Eu agora sou capaz de lidar com o vazio.

A parahyba tem cheiro de mar e eu sei que as águas são difíceis de navegar. Mas é nesse cheiro que eu me preencho. Vou reencontrá-lo, quando você deixar de me fazer visitas. Já não sigo os teus rastros.

Tudo o que preciso é chorar por ter encontrado paz nas saudades suas.

12/06/2022

Detrito

por um dia tua beleza foi suficiente
o desejo me preenchia
mas enquanto humanas
abrir os vazios cuidado requeria

como nos rasgamos em nossos abismos
e tentamos nos entulhar com companhia

não sei desmembrar em cores
para ver o que pode ser reaproveitado
tudo parece cinza, contaminado

vejo o carro chegando
recolhendo e levando
eu a olhar os sacos
abafados indo embora

estou no meio da rua
parada e em pé
sofrendo com as mãos sujas
e por não poder recuperar o que chamei de amor

tudo sobre você foi água
um dia rio
nem sempre doce
hoje assoreada

22/05/2022

Duas

amor entre mulheres é pesado quando 

precisamos entrar no personagem de que não existe amor

na rua

na família

no trabalho

as vezes até no cinema

já pensou?

não poder ser amor entre mulheres no cinema 

que é escuro e frio?

11/04/2022

Um corpo no chão

crianças são corpos pequenos
corpos pequenos assistindo a morte de um corpo grande
ou um grande corpo?
vale mais a vida do pequeno ou do grande?
quanto vale a vida?

há paz para os corpos mortos?
pois que não há paz para os corpos vivos!

corpos pequenos saindo da escola
que são grandes corpos
mas ainda não capazes de perceber a falta
de paz que há na Terra

dizem que nossos corpos são comidos pela terra
a Terra há de querer pequenos grandes corpos?

assassinaram um homem
um pai
o corpo no chão
as crianças saindo da escola

há de ter paz para os seres mortos!
enquanto isso, luto pela paz dos seres vivos!

18/03/2022

Chuva

O que falta é te nomear. Só que é como se antes fosse preciso assumir. Assumir mais parece com culpa. 

Assumir amor? 

Essa semana choveu aqui no cariri e fiquei muito feliz. Lembrei você me ensinando o significado da chuva. 

Pensei: acho que isso é amor.

Talvez te nomear seja difícil porque queria que o nosso amor fosse mais memórias como essa.

O amor é ter mais memórias boas?

Nesses últimos dias é certo que a chuva vem, inicia pela noite e para no começo da manhã.

E eu fico pensando: quando ela volta?


Tudo sobre você permanece água.

18/10/2021

Andarilha III

Um dia as pessoas vão me olhar na rua e eu vou ser uma comum desconhecida.

Um dia as pessoas vão me olhar e me desconhecerem ao andar. 

Cadê você?

Quem se tornou?

Para onde vai?

E com um sorriso singelo vou responder: o que sou estou sempre a buscar.

09/10/2021

Mar aberto

Eu estou na beira da praia. Sem roupa de banho. O mar me chama para dentro. O seu som me diz: olhe para dentro. Como é difícil... O que tenho dentro é um oceano. Estou agora em mar aberto. Sem terra à vista. Não sei voar e a necessidade de tocar o solo é imensa. Queria sangrar, para poder quem sabe, diluir a vastidão.

Hoje cedo acordei com tanta dor! Com o calafrio, o suor e a tontura parecia estar parindo a mim mesma. Quase desmaiar me fez pensar em ligar para alguém. A dor quando foi embora me fez pensar. Aí dormi. Acordei e não sabia o que fazer comigo mesma. Gilberto Gil tem razão. Não preciso aprender a ser só, preciso aprender a só ser. E é vasto, imenso, oceânico. Só ser é muita coisa e ainda não sei.

Então vim para a beira da praia. Talvez seja uma parte minha na terra que diz para a parte minha na água: a vida é ambivalente. Tudo bem querer ser livre e ainda não saber. Tudo bem querer estar sozinha e precisar de companhia. Tudo bem gostar do desconhecido e necessitar de segurança. Tudo bem ser mulher e ainda ser menina. A mulher está no mar ou no solo? E a menina?

Sempre tenho frio no fim da tarde, mas com o casaco o vento não acaricia. A todo instante eu quero duas coisas. Tudo bem ser ambivalente. Mas hoje eu só queria alguém pela manhã, caso eu desmaiasse. Porque no mar aberto não se pode estar inconsciente. Sinto cansaço em ser imensa. Só no corpo consigo ser pequena. Meu corpo tem 27 anos. Mas quantos anos tem minha alma?