05/07/2022
Caldo
12/06/2022
Detrito
por um dia tua beleza foi suficiente
o desejo me preenchia
mas enquanto humanas
abrir os vazios cuidado requeria
como nos rasgamos em nossos abismos
e tentamos nos entulhar com companhia
não sei desmembrar em cores
para ver o que pode ser reaproveitado
tudo parece cinza, contaminado
vejo o carro chegando
recolhendo e levando
eu a olhar os sacos
abafados indo embora
estou no meio da rua
parada e em pé
sofrendo com as mãos sujas
e por não poder recuperar o que chamei de amor
tudo sobre você foi água
um dia rio
nem sempre doce
hoje assoreada
22/05/2022
Duas
amor entre mulheres é pesado quando
precisamos entrar no personagem de que não existe amor
na rua
na família
no trabalho
as vezes até no cinema
já pensou?
não poder ser amor entre mulheres no cinema
que é escuro e frio?
11/04/2022
Um corpo no chão
crianças são corpos pequenos
corpos pequenos assistindo a morte de um corpo grande
ou um grande corpo?
vale mais a vida do pequeno ou do grande?
quanto vale a vida?
há paz para os corpos mortos?
pois que não há paz para os corpos vivos!
corpos pequenos saindo da escola
que são grandes corpos
mas ainda não capazes de perceber a falta
de paz que há na Terra
dizem que nossos corpos são comidos pela terra
a Terra há de querer pequenos grandes corpos?
assassinaram um homem
um pai
o corpo no chão
as crianças saindo da escola
há de ter paz para os seres mortos!
enquanto isso, luto pela paz dos seres vivos!
18/03/2022
Chuva
O que falta é te nomear. Só que é como se antes fosse preciso assumir. Assumir mais parece com culpa.
Assumir amor?
Essa semana choveu aqui no cariri e fiquei muito feliz. Lembrei você me ensinando o significado da chuva.
Pensei: acho que isso é amor.
Talvez te nomear seja difícil porque queria que o nosso amor fosse mais memórias como essa.
O amor é ter mais memórias boas?
Nesses últimos dias é certo que a chuva vem, inicia pela noite e para no começo da manhã.
E eu fico pensando: quando ela volta?
Tudo sobre você permanece água.
18/10/2021
Andarilha III
Um dia as pessoas vão me olhar na rua e eu vou ser uma comum desconhecida.
Um dia as pessoas vão me olhar e me desconhecerem ao andar.
Cadê você?
Quem se tornou?
Para onde vai?
E com um sorriso singelo vou responder: o que sou estou sempre a buscar.
09/10/2021
Mar aberto
Eu estou na beira da praia. Sem roupa de banho. O mar me chama para dentro. O seu som me diz: olhe para dentro. Como é difícil... O que tenho dentro é um oceano. Estou agora em mar aberto. Sem terra à vista. Não sei voar e a necessidade de tocar o solo é imensa. Queria sangrar, para poder quem sabe, diluir a vastidão.
Hoje cedo acordei com tanta dor! Com o calafrio, o suor e a tontura parecia estar parindo a mim mesma. Quase desmaiar me fez pensar em ligar para alguém. A dor quando foi embora me fez pensar. Aí dormi. Acordei e não sabia o que fazer comigo mesma. Gilberto Gil tem razão. Não preciso aprender a ser só, preciso aprender a só ser. E é vasto, imenso, oceânico. Só ser é muita coisa e ainda não sei.
Então vim para a beira da praia. Talvez seja uma parte minha na terra que diz para a parte minha na água: a vida é ambivalente. Tudo bem querer ser livre e ainda não saber. Tudo bem querer estar sozinha e precisar de companhia. Tudo bem gostar do desconhecido e necessitar de segurança. Tudo bem ser mulher e ainda ser menina. A mulher está no mar ou no solo? E a menina?
Sempre tenho frio no fim da tarde, mas com o casaco o vento não acaricia. A todo instante eu quero duas coisas. Tudo bem ser ambivalente. Mas hoje eu só queria alguém pela manhã, caso eu desmaiasse. Porque no mar aberto não se pode estar inconsciente. Sinto cansaço em ser imensa. Só no corpo consigo ser pequena. Meu corpo tem 27 anos. Mas quantos anos tem minha alma?