16 de fev de 2012

Deforme o vento, conforme o ciclo

 O meu olhar estava fixo e o pedaço de papel caía lentamente, eu o acompanhava inerte. Sem cenas de filme, sem câmera ajustada, sem clichê. Ele caía e eu só quis olhar o seu encontro com o chão. Sua insensibilidade não me parecia nada estrategista, me mostrou inocência. Eu sempre doída pelas quedas e ele ingenuamente não se machucava ao cair. Eu sentada, a espera do ônibus e menos dor. Enquanto o pequeno pedaço de papel apenas voava conforme o vento sem pressa, sem ânsia, sem espera, sem vida. Porque eu quis por segundos ser um pouco menos sentimental e não acreditar demais no que eu mesma sentia. Sem enfeites, sem acréscimos, sem confiança. Eu quis por segundos poder cair no chão e ser pisoteada sem sentir nada. Sentir demais é sinônimo de autenticidade. Mas certamente sentir sozinho é um sofrimento grande, e a reciprocidade é esperada. Sentir demais é bom quando o outro também sente muito. Sentir demais sozinho é uma solidão pior do que estar apenas sozinho, sem nada. Sem nada sentir.
 Desvinculei a atenção. Desliguei o rádio emocional. Sabe-se lá por quanto tempo estive parada olhando e seguindo o papel e os pensamentos me invadindo... Mas sei que ninguém além de mim naquele momento havia percebido tamanha frivolidade e se prendido a isso. Eu me soltei. Enfim, o ônibus chegou... O pedacinho de papel cada vez mais longe. Lembrei você. Cada vez mais longe... E então, sem entender, eu tinha transformado um fim numa história dolorosa de filme. Com clichê, mas sem câmeras ajustadas. Sem sentimentos medidos, um coração partido. Eu me fui previsível. Sem surpresa a mim mesma. Decepção, sofrimento, recuperação. Encantamento, afundamento, decepção, sofrimento, recuperação. Que ciclo entediante, com fim e começo premeditado. Sem tempo de partida ou começo, mas sempre a condição de que acaba. Que ciclo infindável. Poderíamos estagnar em alguém e por lá ficar. Poderíamos. Talvez há de se chegar. Mas sem enfeites, sem acréscimos, sem confiança. 

Um comentário: