31/08/2023

Entre

Eu moraria entre teus seios.

Se você deixasse
neles me esqueceria
como quem acorda sem saber
ano mês dia.

Passearia no cheiro
alcançaria o formato
ancoraria na ponta
e me encontraria na certeza
de que são os mais lindos
que já experimentei na vida. 

E se um dia você me dissesse
pra ir embora
procurar outro meio
circular em outro canto
seria então na saudade
entre teus seios
que eu moraria.

02/08/2023

Ecdise

a mulher que quero ser
é maior do que a que eu sou

a sensação é de que estou
cortando a carne
rasgando a pele
para me fazer grande

as vezes quero correr
até não sentir mais meu corpo
até esquecer que tenho um

por vezes na intenção de me achar
por vezes na intenção de simplesmente
ir cada vez mais pra longe
de quem quero ser

25/07/2023

Primavera

meu corpo é leve
minha idade é pouca
meus pensamentos são muitos
meu coração é pesado
e a estrada é longa.

minha sede é grande
minha fome é constante
minha escrita é urgência
e a noite sempre chega.

torço pela primavera...

03/07/2023

Poeta

Do lugar que eu me encontro, é tudo tão escuro e sem caminho, que o único alívio é pensar que sou poeta. Não sei no que sou boa, não sei que lado vou seguir, não sei porque nunca pensei minha vida como quem pensa no que gosta, mas ainda bem que eu escrevo.

Acho que é tarde e já não tenho mais tempo, no entanto faço esforço para minha mente acatar que só carrego 29 anos e ainda posso descobrir o que fazer nesse mundo que me nutra. Oscilo tanto entre uma coisa e outra, acabo por conceber nada. Acho que aceitar o que não quero seja um passo. É Chico Science, talvez eu já não esteja no mesmo lugar. 

Muitas vezes me encontrei perdida. Como todas as outras, essa também parece não ter saída. Choro e rio. Toda dor é diferente e eu já enfrentei tantas. Choro e rio. Há anos eu escrevo para achar a saída de minhas dores. Choro e rio. Um dia me encontro - e torço que não demore tanto.

16/06/2023

Foz


nosso encontro é como rio

com mar

ora sou água doce

ora sou água salgada

assim também é você

estou em correnteza

não tem distância                                                      que desvie esse curso

me
      lancei
                 nas
                        tuas
                                águas

ao mesmo mesmo tempo que espero


você
desaguar          
em                            
                      mim                                   

na foz de barra, me inundou:
eu já aspirava por tua chegada

é gostoso demais me misturar em você

17/05/2023

Astrolábios

não sei como configura o céu

mas me faz pensar

que vênus se encontra bem posicionada

quando você está de pernas abertas

16/04/2023

Emaranhado

Eu sempre amei torto. Tortíssimo. Não sei amar em retidão. Eu amei sempre em emaranhado. Com outros sentimentos que se misturam. Apego, ciúmes, raiva. O amor deixa de ser amor por estar emaranhado com outros sentimentos? Existe amor só amor? Não sei, sempre amei assim. Muitas vezes senti culpa por não saber amar. Até hoje não sei. Não saberei. Acho que não se aprende a amar. 

É difícil saber quando o amor chega, mais ainda quando o amor se vai. Ver o amor emaranhado sem amor muitas vezes fez eu me apegar aos outros sentimentos, achando que ainda amava. O vazio do amor é coisa doída que faz a gente desejar sentir qualquer coisa, mesmo que coisa mais doída ainda de sentir. Talvez o amor se transmute, reivindicando um outro emaranhado.

Se aprendi que quando amo mudo a mim, aprendi com meus grandes amores. Lembro deles e desejo um espaço novo em minha vida. Grandes amores deixam um dia de serem amores? Acho que talvez se emaranhem outros sentimentos, maiores e que precisam de mais entrelaçados. Amor com amizade, cuidado, intimidade de quem já conhece a doçura e amargues daquela alma.

Cansei da culpa de amar torto, impreciso, falho. O amor que entreguei não me arrependo, ainda que fosse coberto com o novelo de outros sentimentos. Posso tecer novos emaranhados, aprender em crochê modelos mais ajustados, mas não sou habilidosa com a agulha. Me interessa mais colocar o fio na ponta, movimentar as mãos, cruzar as linhas. Ver a mistura das cores.

Não sai adorno bonito. O que sai quando amo, é o que sou. O que sou muda, inevitavelmente. Então sim, meus grandes amores serão ainda grandes amores, só que de grandezas fiadas de um amor com linha diferente.

E quando amo é com o que sou, posso amar adiante um outro grande amor com emaranhados novos, mas as mãos de quem já sabe que mais vale os olhos no instante e a beleza da persistência. Não sei amar bonito, não quero saber de formato. Todo grande amor é como a utopia de aprender a amar pela primeira vez.