11/04/2022

Um corpo no chão

crianças são corpos pequenos
corpos pequenos assistindo a morte de um corpo grande
ou um grande corpo?
vale mais a vida do pequeno ou do grande?
quanto vale a vida?

há paz para os corpos mortos?
pois que não há paz para os corpos vivos!

corpos pequenos saindo da escola
que são grandes corpos
mas ainda não capazes de perceber a falta
de paz que há na Terra

dizem que nossos corpos são comidos pela terra
a Terra há de querer pequenos grandes corpos?

assassinaram um homem
um pai
o corpo no chão
as crianças saindo da escola

há de ter paz para os seres mortos!
enquanto isso, luto pela paz dos seres vivos!

18/03/2022

Chuva

O que falta é te nomear. Só que é como se antes fosse preciso assumir. Assumir mais parece com culpa. 

Assumir amor? 

Essa semana choveu aqui no cariri e fiquei muito feliz. Lembrei você me ensinando o significado da chuva. 

Pensei: acho que isso é amor.

Talvez te nomear seja difícil porque queria que o nosso amor fosse mais memórias como essa.

O amor é ter mais memórias boas?

Nesses últimos dias é certo que a chuva vem, inicia pela noite e para no começo da manhã.

E eu fico pensando: quando ela volta?


Tudo sobre você permanece água.

18/10/2021

Andarilha III

Um dia as pessoas vão me olhar na rua e eu vou ser uma comum desconhecida.

Um dia as pessoas vão me olhar e me desconhecerem ao andar. 

Cadê você?

Quem se tornou?

Para onde vai?

E com um sorriso singelo vou responder: o que sou estou sempre a buscar.

09/10/2021

Mar aberto

Eu estou na beira da praia. Sem roupa de banho. O mar me chama para dentro. O seu som me diz: olhe para dentro. Como é difícil... O que tenho dentro é um oceano. Estou agora em mar aberto. Sem terra à vista. Não sei voar e a necessidade de tocar o solo é imensa. Queria sangrar, para poder quem sabe, diluir a vastidão.

Hoje cedo acordei com tanta dor! Com o calafrio, o suor e a tontura parecia estar parindo a mim mesma. Quase desmaiar me fez pensar em ligar para alguém. A dor quando foi embora me fez pensar. Aí dormi. Acordei e não sabia o que fazer comigo mesma. Gilberto Gil tem razão. Não preciso aprender a ser só, preciso aprender a só ser. E é vasto, imenso, oceânico. Só ser é muita coisa e ainda não sei.

Então vim para a beira da praia. Talvez seja uma parte minha na terra que diz para a parte minha na água: a vida é ambivalente. Tudo bem querer ser livre e ainda não saber. Tudo bem querer estar sozinha e precisar de companhia. Tudo bem gostar do desconhecido e necessitar de segurança. Tudo bem ser mulher e ainda ser menina. A mulher está no mar ou no solo? E a menina?

Sempre tenho frio no fim da tarde, mas com o casaco o vento não acaricia. A todo instante eu quero duas coisas. Tudo bem ser ambivalente. Mas hoje eu só queria alguém pela manhã, caso eu desmaiasse. Porque no mar aberto não se pode estar inconsciente. Sinto cansaço em ser imensa. Só no corpo consigo ser pequena. Meu corpo tem 27 anos. Mas quantos anos tem minha alma?

22/09/2021

Meio

No meio do dia. No meio da sala. No meio prato. No meio do peito. No meio do choro. No meio do pranto. No meio de nutrir. Tem você. 

No meio da noite. No meio do quarto. No meio da cama. No meio vazio. No meio cheio. No meio do nada. No meio do tudo. No meio de descansar. Tem você.

No meio da manhã. No meio da cozinha. No meio da pia. No meio do sujo. No meio do limpo. No meio da água. No meio da sede. No meio da saliva. Tem você.

No meio das horas. No meio dos cômodos. No meio dos objetos. No meio dos instantes. No meio das lembranças. No meio dos desejos. No meio dos medos. Tem você.

No meio do sol. No meio da lua. No meio do mar. No meio do bosque. No meio das plantas. No meio do vento. No meio do pensamento. No meio do coração. Tem você.

No meio da semana. No meio de hoje. No meio de lembrar. No meio de esquecer. No meio de vestir. No meio de despir. No meio de detestar. No meio de amar. Tem você.

Na frente do princípio. No meio. Atrás do fim.

16/09/2021

Fotografia

Eu amo o seu cheiro e como isso me traz a ilusão de segurança. Ou fuga da realidade - como uma droga.
Eu odeio os ciclos de prazer e dor que vivo ao sentir teu cheiro e no mesmo instante saber que ele não exala casa.
Eu amo o fato de poder me sentir viva ao estar com você e ser admirada.
Eu odeio o fato de me sentir morrer cada vez que compreendo minha falta de auto estima.
Não sei o que é o amor porque ainda não sei amar.
O amor é uma fotografia embaçada para mim, preciso usar outras lentes.
Nunca amei em nitidez.

07/08/2021

Queda livre V

Essa metáfora do amor como um pulo do penhasco só me levou ao chão. E eu julgando ser coragem, sempre subindo novamente ao topo, cada vez mais cansada. Me entregando para o amor. Eu não sei em que lugar eu me encontro. Eu nem sei se me serve mais essa coisa de se jogar, sem abrir os olhos. Voar me interessa, voar é meu destino. Mas ir em busca do amor a outra pessoa, não sei mais se faz sentido. Acho que usei a palavra coragem no lugar de anulação. Me jogar do penhasco com toda adrenalina, parece ser mais uma forma de esquecer da dor de ser eu. E de também encontrar a delícia. Pular representa a espera de ser salva? Deve ser por isso que sempre fui ao chão. Dura realidade, nestes estrondos que julguei serem voos, compreender que era uma forma de me engaiolar. Sofrido me deparar com a verdade de que jamais alguém me salvará. Não sei em que parte eu me encontro. No pulo, no chão, no topo. Eu sei que me acaricio cada vez menos com esse vento e não me parece ele o faro para o amor. Voar é meu destino, essa é a minha viagem. Não em busca de alguém, mas sim, de mim mesma.