3 de nov de 2011

Fruto imaginário.

 Desviou o olhar. A raiva despertada sempre exalava a dor passada, e nada era realmente esquecido, ultrapassado, compreendido. Ele era intensamente incompreendido. E por quê? Por ser real e sonhador ou por viver onde existiam borboletas brilhando, ao contrário de seres humanos que machucam e mentem? Ele preferia sorrir, muito. Sorrir sempre. Pra sempre. Mas seria uma saída, seria um desvio do verdadeiro caminho e seria também bobagem seguir assim. Sempre sorrindo... 
 Desviou o olhar, para não sorrir. E nem chorar. Pra despertar o sentimento sem transparência, sem emoção. Só despertar, aparecer, deixar claro. Escuridão não existia no seu lugar onde pisava-se em açúcar e não terra. E verde... Muito verde. Era um mundo vivo! Onde lá viviam, as pessoas. E não existiam. Viviam, vivem, morrem. Porque tudo que está vivo há de passar pela morte, e lá ficar... Ou passar. Quem sabe? Tudo que apenas existe não significa, não marca e por isso, não morre.
 Desviou o olhar, pra mostrar firmeza. Fechar os pontos, acertar os rumos, esvaziar o peso e todo sentimento. Desviou o olhar. De tudo que atrasava, puxava, cansava. Desviou o olhar da maldade constante dos que existiam. Olhou pra vida e sorriu - dela nunca desviara. Desviou o olhar, se levantou e foi embora da sujeira que deixaram aqueles que ninguém nunca quis mais por perto. Tudo que nos suga, arrancamos da gente e colocamos no lixo sentimental. O seu estava vazio, já era hora de usá-lo, pôr serventia.
 Desviou o olhar e foi andando pra solidão não seca, molhada de chuva, lágrima e sorrisos. Sorrisos não são secos, são cheios de água, cheios e vivos, vivo de tudo que há de mais limpo e puro nessa vida. Seguindo por sua estrada onde tudo era doce e coberto de cores ele acabava por não mais ser incompreendido, e sim compreensível por tudo que há de ter vida. Ele agora era um ser livre e sem mágoas. Agora ele não existia, ele vivia.

Olhou pra mim e brotou a mais pura admiração, nos olhamos assim, e eu te amei sem nem conhecê-lo. Amei sua vida e a forma agradável de descrevê-lo e por assim, imaginá-lo sem mesmo nem existir. Eu desejei, pela primeira vez, alguém assim, que não existe mas eu mesma criei. Você, que não tem rosto, forma, mas tem em minha mente uma coisa chamada: vida.

2 comentários:

  1. Sem palavras, e para antagonizar o primeiro dito - Perfeito.

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  2. "Tudo que apenas existe não significa, não marca e por isso, não morre." Como sempre escrevendo lindamente *-*

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